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sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Exemplo de caráter



Quantas vezes o amigo leitor já leu: “Ipiaú – cidade modelo”? Quantas vezes, esse mesmo leitor se perguntou o motivo de tal designação. A cidade parece estar estagnada já há certo tempo. Alguns pessimistas poderiam até mesmo alegar que a cidade parece diminuir, mas a verdade é que a cidade teve seus tempos áureos.


Ipiaú não tem atrativos turísticos que possam dar sustento ao comércio; tampouco é um pólo industrial. 

A base da economia sempre se sustentou na agricultura, mas ao que parece, desde o súbito aparecimento da vassoura de bruxa, temos tentado esquecer este fato.

Houve em Ipiaú, um homem, um sonhador utópico, que via esse potencial agrícola e apostava seriamente nesse filão. Queria criar uma cidade modelo de desenvolvimento, com uma agricultura sólida, um sistema de educação de qualidade, seu nome? – Euclides José Teixeira Neto.

Dr. Euclides, como ficou conhecido, era de ideologia socialista[1], e não são poucos os que se utilizam deste fato para justificar sua hombridade, no entanto Dr. Euclides era um homem íntegro por natureza. Daqueles que servem de exemplo para as gerações vindouras[2].

Suas inúmeras benfeitorias elevaram Ipiaú à condição de cidade modelo de desenvolvimento no estado da Bahia (1966). Entre suas reformas a mais famosa é sem sombra de dúvida a Fazenda do Povo.

Sobre o projeto Fazenda do povo, Dr. Euclides escreveu que “nasceu da vontade de fazer uma experiência socialista, sem ficar somente na proveta do laboratório de sociologia e política".

Sua postura ideológica, no entanto está presente em toda sua obra literária. Em seu livro O Patrão (1978), Dr. Euclides conta a história de Tomás, o vaqueiro do Senhor Cassemiro, que se vê sem alternativas e acaba se apossando do dinheiro da venda de uma das vacas de seu patrão para poder arcar com as necessidades básicas em casa.

Em casa eram dez bocas para dar de comer; com ele e a mulher, doze. Bem verdade, que poderia tirar uns litros de leite, a fim de completar a ração; mas, na hora de comprar o metro de pano, a coberta dorme-bem, uma bobagem qualquer, cadê o dinheiro? Quando os meninos eram menorezinhos, iam ficando buguelos, as meninas com calcinhas encardidas. As mais velhas – por falta de sorte eram as fêmeas – já tinham virado mulher. Queriam vestidos e não podiam aparecer assim sem roupa.(TEIXEIRA NETO, Euclides José. O Patrão. Salvador 1978. P. 05)

Dr. Euclides era desses homens capazes de dar sangue pelos seus sonhos, ou como bem definiu Albione Souza Silva e Sandra Regina Mendes, um visionário.[3]



REFERÊNCIAS

JORNAL DE IPIAÚ, Ipiaú 22 de dezembro de 1966, p. 1, 3, 6
CARVALHO, Olavo de. O imbecil coletivo. São Paulo 1995, p. 325
TEIXEIRA NETO, Euclides José. O Patrão. Salvador 1978.p. 5





[1] O Dr. Euclides Neto não foi o primeiro prefeito comunista do país. Muito antes dele houve o famoso escritor Graciliano Ramos. Graciliano Ramos, Relatórios, organização de Mário Hélio Goulart de Lacerda (Editora Record ).
“‘Resolvemos editar os relatórios porque eles sempre despertaram muito interesse entre os amantes da obra de Graciliano, principalmente na época do impeachment de Collor, quando a discussão sobre ética veio à tona’, explica o editor Sérgio Machado, da Record.” Jornal do Brasil, 23 dez. 1994.


[2] NA ÉPOCA DO IMPEACHMENT de Collor, os Relatórios da gestão Graciliano Ramos na Prefeitura dePalmeira dos Índios — inseridos no volume Viventes das Alagoas e reeditados agora em volume independente foram muitas vezes citados para lembrar ao público, em contraste com a indecência presidencial, umexemplo clássico de probidade administrativa, adornado, ademais, de um dos mais belos estilos literários dalíngua portuguesa.


. A lição edificante, porém, trazia nas entrelinhas uma mensagem política enviesada: Graciliano não comparecia ali apenas como administrador impecável e artista sem mácula, mas como um emblema da superioridade moral da esquerda.


Sua figura ajudava a conferir à luta contra a corrupção a subtonalidade ideológica desejada, sem a qual a campanha moralista arriscava produzir o mais temível dos resultados: levar ao poder um punhado de direitistas honestos. A imagem de Graciliano foi levantada para exorcizar esse fantasma.


O exemplo, no entanto, impressionava antes pela raridade. A direita, fértil em corruptos célebres, possui também em sua galeria de antepassados emblemáticos uma coleção notável de governantes íntegros, como por exemplo, o marechal Castelo Branco, incapaz de usar o dinheiro do governo para comprar sequer um envelope de aspirina, ou Pedro II, governando durante quarenta anos desde dentro de um mesmo terno surrado. Mais à direita ainda, não se encontrará a menor mancha na reputação administrativa de Salazar, de Marcelo Caetano ou de Francisco Franco. Mas a vida de todos os grandes líderes comunistas, sem exceção, é uma história escabrosa. Karl Marx teve com a empregada um filho que, em prol da decência burguesa, jamais foi admitido à mesa da família. Lênin começou sua carreira vendendo a Rússia à Alemanha em troca de um trem blindado. Stálin custeava orgias com o dinheiro público, e Mao Tsé-tung,como se revelou há pouco, comia até os guardinhas do Palácio — entrando, literalmente, para os anais da Revolução. Luís Carlos Prestes, Robin Hoodao contrário, roubou do Terceiro Mundo para dar ao Comintern; e, no governo João Goulart, quando os comunistas proclamavam estar no poder, o amigo do presidente não era o trapalhão P. C. Farias, mas um gêniodo tráfico de influência, Tião Maia, que após a queda de seu protetor comprou a vigésima parte do território da Austrália, onde é hoje a quarta maior fortuna do país. Quando lhe perguntam “Como?”, ele responde: “O Banco do Brasil foi uma mãe para mim.” (CARVALHO, Olavo de. O imbecil coletivo. São Paulo, 1995)



[3] Euclides Neto, um homem visionário é o título de um artigo escrito por Albione Souza Silva e Sandra Regina Mendes para a revista, Cidades em Foco e publicado posteriormente como capítulo do livro Ipiaú – Histórias de nossa história.



quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Nós, os Tapuias!



Ipiaú era uma região habitada inicialmente pelos índios Tapuias. Tapuia é um termo histórico utilizado ao longo dos séculos no Brasil para designar uma classe de povos indígenas. 

Originalmente dividiam-se os índios brasileiros em dois grandes grupos, um sendo os tupi-guaranis (tupinambás) e outro denominado por tapuias que habitavam regiões mais interiores. 

Expliquemos melhor: Os gregos antigos em função do grande avanço que sua sociedade havia conquistado chegavam ao ufanismo de julgar inferior toda cultura que se diferenciasse. Por causa disso, todos os que não falavam grego soavam como “bar-bar-bar” por isso os gregos lhes davam o nome de bárbaros. 

Algo semelhante acontecia aqui no Brasil pré-colônia, no período que os nativos ainda chamavam essa terra de Pindorama. Todos os que não pertenciam ao tronco linguistico Tupi-Guarani era chamados de Tapuias.

Há diversos entendimentos das origens do termo, mas em geral observa-se que seria de procedência tupi e teria significado semelhante a "forasteiro", "bárbaro", "aquele que não fala nossa língua", "inimigo"

“Tapuia significa bárbaro, inimigo. De taba – aldeia, e puir – fugir: os fugidos da aldeia” escreveu José de Alencar, no seu mais famoso livro, Iracema, de 1865.
Mas existem outras versões:

O termo Tapuio não é expressão designativa de uma etnia. É tão somente “Um vocábulo de origem tupi, corruptela de tapuy-ú – o gênio bárbaro comum, onde vive o gentio. [...] É um dos termos designificação mais vária no Brasil. No Brasil pré-cabraliano assim chamavam os tupis aos gentios inimigos, que, em geral, viviam no interior, na Tapuirama ou Tapuiretama – a região dos bárbaros ou dos tapuias.
Tomislav R. Femenick, 2007

Mas, autores quinhentistas como Gabriel Soares de Sousa já utilizavam o termo tapuia contrastando os índios dessa estirpe com os tupi-guaranis (tupinambás, que na verdade, eram a junção entre os tupis e os guaranis). Escreveu sobre a origem dos Aimorés:

Descendem estes aimorés de outros gentios a que chamam tapuias, dos quais nos tempos de atrás se ausentaram certos casais, e foram-se para umas serras mui ásperas, fugindo a um desbarate, em que os puseram seus contrários, onde residiram muitos anos sem verem outra gente; e os que destes descenderam, vieram a perder a linguagem e fizeram outra nova que se não entende de nenhuma outra nação do gentio de todo este Estado do Brasil
Soares de Sousa, 1971 [1587], 78-79

Os tupi-guaranis marcavam presença no litoral enquanto os tapuias predominavam no interior. Grupos tapuia incluem por exemplo os botocudos e muitos do nordeste do Brasil como os tarairus e cariris.

Hoje geralmente associa-se o termo ao tronco linguístico Macro-jê.
Somente pelos ido de 1913 surgiram os primeiros desbravadores na região, hoje, conhecida como Ipiaú.

Historicamente o pioneiro foi Raimundo dos Santos, conhecido por Raimundo “Crente”. 

O primeiro nome dado à cidade como todos já sabemos, foi Rapa-Tição, devido – segundo alguns – a uma briga entre duas mulheres, que utilizavam de uns pedaços de lenha em brasas como arma. 

Segundo outros, esse nome era uma corruptela de Repartição, palavra estranha para o linguajar naqueles tempos. Tal repartição era um posto para arrecadação de tributos fiscais instalado em 1916, em Rio Novo, pela intendência de Camamu.

Em 1º de agosto de 1916, passou à categoria de Distrito, com o nome de Alfredo Martins e pertencente ao município de Camamu. 

Em 1930, foi elevado a subprefeitura, com o nome de Rio Novo, nome que conservou até 30 de dezembro de 1943, quando passou a se chamar Ipiaú – “rio novo” em Tupi. O Decreto Lei n.º 512, de junho de 1945, criava a comarca de Ipiaú, tendo como seu primeiro juiz de Direito o Dr. Milton Costa, que chegou à cidade em 17 de janeiro de 1946. Em 1965, ganhou o titulo de Município Modelo da Bahia.

“O primeiro subprefeito foi Sr. Waldomiro Almeida Santos, quando Ipiaú ainda estava vinculado a Camamu. Quando subordinado a Jequié, teve como subprefeito o Sr. Osório Cordeiro, o Sr. Antônio Augusto Sá, foi o primeiro prefeito nomeado, mas o primeiro prefeito eleito pelo povo com o voto direto foi Sr. Leonel Dias de Andrade”.

J. Fagner


Fontes
CEPLAC. Cidades do cacau, Ilhéus, Bahia, 1982
OLIVEIRA, E. da S.; MORAIS, M. A de; MEDEIROS, E. D. de & MEDEIROS, M. de L. P. de. Tapuias. História do RN n@ WEB [On-line] (ufrn.br)
FEMENICK, Tomislav R.. Tapuios e Outros Índios. Gazeta do Oeste, Mossoró 28-01-2007; O Jornal de Hoje, Natal 29-01-2007
MONTEIRO, John M.. Tupis, Tapuias e Historiadores. Estudos de História Indígena e do Indigenismo. Departamento de Antropologia, IFCH-Unicamp, Campinas 2001

sábado, 8 de agosto de 2009

O patriarca Thiara


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“Da mesma maneira que os poetas adoram seus versos, e os pais aos filhos, um comerciante preza sua riqueza por ser obra sua, e também por causa de sua utilidade, igualmente a todos os outros homens.”
(Platão)

Apesar da visão difundida pelo gramscismo de que a história destaca apenas pessoas que representam interesses de grupos detentores do poder econômico em detrimento das pessoas comuns, a verdade é que a história trata daqueles que se destacaram por causa de seus esforços, suas ações, seus exemplos.

Se o indivíduo nasceu de família rica ou conquistou certa posição econômica por causa do seu esforço, em nada altera sua integridade ou compromete sua honradez. O que define o indivíduo é o seu comportamento, suas ações, não sua conta bancária.

Digo isso porque muitos são os que reclamam quando escrevemos sobre alguém de destacada posição social.

Um ressentimento paranóico típico de pseudo-intelectuais da esquerda.

José Thiara, foi um desses capitalistas que muito contribuíram para o desenvolvimento de Ipiaú e região, seja de forma direta ou indireta.

José Thiara nasceu em 15 de setembro de 1905. Era de nacionalidade sírio-libanesa da cidade de Tartus. Como muitos outros de sua época, veio ao Brasil em busca de uma vida melhor, visto que o nosso país estava em franca expansão na época. Quando chegou à região José Thiara contava 18 anos de idade. Era um imigrante de poucos recursos. Começou em trabalhos pequenos na cidade de Jequié. Depois de conseguir acumular pequeno capital, tornou-se hoteleiro.

Era proprietário do Hotel Rex naquela mesma cidade. Mas, José Thiara era um homem de visão, logo percebeu que a agricultura lhe daria um retorno muito maior. Mudou-se então do sudoeste para o sul da Bahia, mais especificamente para a cidade de Ibirataia. Ali, José Thiara conseguiu progredir, onde se consagrou como um dos mais abastados fazendeiros e cacauicultores do sul da Bahia e um dos mais conceituados agentes comprador de cacau das firmas, Barreto de Araújo, Produtos de cacau S/A, Brandão Filhos S/A, Joannes Industrial S/A, Chadler S/A, e algumas outras.

Chegou a possuir doze fazendas, entre elas a Fazenda do Guloso, no município de Ipiaú. Era também proprietário das Fábricas de Chocolate Dizio S/A e Plásticos ARAIT S/A no estado de São Paulo, sem falar dos vários prédios no município de Ibirataia, onde funcionava seu escritório.

Em 1965 José Thiara doou o terreno para o parque de exposição que leva o seu nome na cidade de Ipiaú.

Gerador de muitas vagas de empregos diretos e indiretos, José Thiara colaborou em muito para o desenvolvimento de nossa Região.

No dia 3 de janeiro de 1967 durante uma viagem de Salvador para a sede de sua fazenda Guloso, José Thiara foi acometido de uma perturbação circulatória. Foi levado para a Clínica São Vicente em Jequié, onde faleceu às 8h e 15m.

No dia 25 de janeiro de 1967 o Jornal de Ipiaú publicava: “Um golpe doloroso: Morreu José Thiara”.

Deixou viúva Eunice Gonçalves Thiara, e órfãos, Edson Gonçalves Thiara, Sônia Gonçalves Thiara e Péricles Gonçalves Thiara.

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